Os hífenes...
Há algo que me irrita cada vez mais, que é o analfabetismo incessante do pessoal que insiste em não usar os hífenes da forma correcta. Ou por outra, não são os hífenes que não são usados da forma correcta mas sim os tempos verbais - "trataste" não é a mesma coisa que "tratas-te"!
Eu não sou nenhum génio do Português e nem sei de cor os tempos verbais (os que vou indicar aqui tive que ir ver ao dicionário da Priberam) mas intuitivamente sei como usá-los e sei quando é que se aplicam uns e outros. E não é preciso ser um génio, nem ter sido aluno com notas acima de 16 a Português para saber isto, portanto não me venham com histórias de que eu fui bom aluno e por isso é que sei estas coisas - até porque a Português sempre fui um aluno medíocre. O que é preciso é ter-se algum brio em tudo o que se faz.
Então quando é que se usa e quando é que não se usa o hífen? Vamos lá ver...
"Trataste" é a 2ª pessoa do singular do pretérito perfeito indicativo do verbo "tratar".
"Tratas-te" é a 2ª pessoa do singular do presente indicativo do verbo "tratar".
Este palavreado todo parece muito chato e complicado mas é na verdade muito simples. "Presente" é, como o próprio nome indica, o presente. "Pretérito" significa "passado", portanto também está explicado. A parte do perfeito cai fora do âmbito deste post, portanto deixo ao leitor a recomendação de ir ler o "Tento na Língua" sobre este tema.
Com isto já percebemos melhor aquelas palavras "caras" que ali estão.
Então mas como é que se sabe intuitivamente qual das duas formas usar? Também é muito simples. O "correcto" seria ir pelas regras gramaticais de acentuação, que explicam muito facilmente porque é que "tratas-te" não se lê como «tratáste», ao contrário do que o pessoal às vezes pensa, por ser acentuada onde é. Mas se o pessoal não entende algo tão simples como quando usar o hífen (na escrita), ir para as regras de acentuação é uma batalha perdida logo à partida.
Por isso eu tenho um método mais simples para explicar isto. Pode não ser perfeito mas pelo menos é mais intuitivo:
Quando se usa o hífen, pense-se que se está a escrever duas palavras separadas e leia-se a primeira independentemente da segunda. Ou seja, "tratas-te" lê-se (soa) como "tratas" e depois acrescenta-se o "te" no fim. Experimentem ler em voz alta a palavra pensando nisto e vão logo perceber se estão a escrever o tempo verbal que pretendem ou não, porque o som sabemos associar ao significado que queremos; o problema está é na escrita.
Se ainda não fui claro, vejamos a contextualização de cada uma das duas palavras usadas como exemplo. Leiam isto:
"Tu trataste dos animais antes de saíres?"
"Tu tratas-te sozinho quando te aleijas?"
Uma coisa é o passado (o tal pretérito), outra é o presente. Espero que seja mais claro agora.
Portanto, para quem dá erros destes sistematicamente, por favor, vejam se aprendem a escrever, porra! Não imaginam o ar de analfabetos que isto vos dá... :( E digo isto não com intenção de ofender mas sim de ver se fazem realmente algo para melhorar, porque muitas das pessoas a quem este texto se dirige são meus amigos e entristece-me ver que não são capazes de (ou talvez não queiram?) corrigir algo tão simples quanto isto.

Não do verbo tratar?
""Trataste" é a 2ª pessoa do singular do pretérito perfeito indicativo do verbo "participar"."
...huh?
Oops! :P Originalmente tinha
Oops! :P
Originalmente tinha usado o verbo participar mas depois alterei para tratar. Andei a substituir as referências mas falhei uma.
Obrigado! ;)
Distracções ainda vá
Uma distracção qualquer um tem, o problema é quando esta é a norma.
Quanto à técnica de ler as palavras individualmente antes e depois do hífen é boa, ainda há uns meses a tentei explicar aos meus filhos. Contempla excepções, poucas (as quais não me consigo agora recordar), mas é bem mais fácil e útil do que tentar ensinar as pessoas a pensar em tempos verbais. Isso é areia a mais para certas camionetas.
Resta-me lamentar que seja uma batalha perdida tentar que se escreva decentemente - Ainda ontem vi no supermercado escritos "Alho Françes", "Temporáriamente", e, (ok isto é uma distracção, ou não, mas é giro) "Bom apepite!"... E a coisa só tende a piorar... É que as pessoas simplesmente não dão valor ao escrever bem, e é aí que reside a raíz do problema. As crianças não são fortemente repreendidas se escreverem mal, e consequentemente só querem é que "se entenda" (Minha filha dixit)...
Para terminar: Parabéns ao blog, haja alguém! Mesmo que seja uma batalha perdida, nestas também se exige que se lute.
Nem mais!
Nem mais! É que escrever mal começa a ser a norma e é isso que é preocupante.
Confesso que ainda tenho alguma esperança quanto à batalha mas nunca se sabe, especialmente com o (des)acordo ortográfico (ou pelo menos certos aspectos dele) a minar a aprendizagem correcta da língua...
Obrigado pelo comentário e pelo elogio. :)