país do faz de conta
Estágios não remunerados - o regresso. Ou a partida.
Há uns tempos critiquei duramente as empresas que não pagam aos estagiários.
Hoje fiquei agradavelmente surpreendido ao saber, através do Gil Sousa, que vamos FINALMENTE ter legislação que proíbe a exploração de estagiários.
Pode ser que afinal nem tudo esteja perdido, neste país... :)
Estágios não remunerados
Nos últimos anos tenho tido como clientes várias empresas que aceitam estagiários.
De todas elas, apenas uma paga aos estagiários mais do que aquilo a que as outras costumam chamar as "despesas".
Ora isto dá-me um bocado a volta ao estômago. A desculpa é sempre a mesma: "ah e tal, eles estão cá é para aprender". Algumas empresas chegam a ter a lata de dizer que os estagiários "têm muita sorte em receber uma quantia para cobrir as despesas, porque eles até deviam era pagar, dado que estão cá a aprender".
Europeu de Futebol = Portugal de Férias
Estamos novamente num período de férias para todo o País: o período do campeonato europeu de futebol.
É um mês inteiro onde o país pára e todas as preocupações se desvanecem, dando lugar a Telejornais dos quais 80% são notícias de futebol e outras merdas relacionadas - por favor, quem é que quer saber como é que o Cristiano Ronaldo está vestido? E, umas semanas antes, porque raio interromperam a notícia sobre o sismo na China para dizer que "Ele" tinha chegado a Portugal? Estão a brincar comigo, concerteza...
IRS no país do faz-de-conta
Este país continua a ser uma coisa magnífica, especialmente no que toca a serviços públicos e, com um destaque especial para a informática nos serviços públicos.
No ano passado, a Direcção Geral de Contribuições e Impostos, do Ministério das Finanças, imputou-me uma multa por ter entregado a minha declaração de IRS fora de prazo - isto apesar de eu ter entregado a minha declaração cerca de sete dias antes do prazo terminar.
O que aconteceu foi que o meu pai levado a pensar (por uma funcionária da DGCI) que eu podia ainda entregar a minha declaração em conjunto comdele, e por isso assim fizemos.
Nada nos foi dito, o sistema de entrega online não acusou qualquer problema e tudo parecia estar em ordem - até eu ter recebido uma carta com uma multa de 50 Euros por ter deixado passar o prazo para entrega da minha declaração, multa essa que seria agravada se eu não a pagasse dentro de outro prazo que lá vinha estipulado.
Isto não fazia sentido nenhum, pois a minha declaração tinha sido enviada havia já bastante tempo.
Ao entrar em contacto com a DGCI, descobri então que eu não podia ter entregado a minha declaração em conjunto com o meu pai, e que por isso aquela declaração não foi sequer processada pelo sistema.
Queixei-me e disse que a responsabilidade do erro não era minha mas sim do sistema informático que não estava bem desenhado, pois pelos vistos tinha permitido que tomasse lugar uma situação que não devia ser permitida. Claro que, seguindo as boas regras do Manual do Nazismo do Atendimento ao Público, não havia nada a fazer por ali, não me podiam passar a chamada a um superior e eu teria que expôr a situação por escrito.
Assim fiz. Mas mais uma vez, a minha ingenuidade toldou-me a visão e, dado que já temos "declarações electrónicas", que são uma coisa fantástica para poupar tempo e facilitar a vida do contribuinte, certamente que o e-mail, uma coisa cujo nível de complexidade está vários graus de magnitude abaixo do sistema de declarações electrónicas, também é lido e respondido regularmente.
Tão enganado que eu estava...
Ora num país onde os computadores são considerados bichos de sete cabeças e o atendimento público do estado é prestado, na maior parte das vezes, por senhoras que têm medo deles, eu nunca devia ter esperado uma resposta rápida.
Acabei por tentar outros endereços de e-mail mas o resultado que tive foi o mesmo: o grilo a fazer barulho ao fundo do auditório vazio.
Ao fim de algum tempo sem qualquer resposta, tentei a via telefónica. Primeiro foi o já tradicional "jogo de ping-pong com o cliente" (contribuinte, neste caso), que é tão habitual em atendimentos telefónicos de serviços públicos: somos atendidos, explicamos a situação e, ainda antes que possamos acabar a frase, somos interrompidos por um simpático "só um momento que vou passar".
E pimbas, lá temos a companhia inconfundível daquelas músicas horríveis que já no seu tempo eram consideradas más mas por qualquer motivo, alguma esperteza rara achou que eram perfeitas para enfiar directamente nos ouvidos do pobre cliente/contribuinte, que se arrisca a ficar surdo ao ser apanhado desprevenido por tal insulto auditivo.
Quando me atenderam novamente o telefone, expliquei novamente a situação e novamente fui interrompido pela simpática frase, "isso não é aqui, só um momento que vou passar". Isto repetiu-se várias vezes, eu a ser passado de um lado para o outro, tendo que explicar a minha situação em cada uma delas, até que eventualmente álguém marcou ponto e ganhou o jogo - mas não fui eu.
Depois de tentar ligar para vários sítios, obtendo apenas de cada um deles o mesmo resultado (isto é, nada), achei que não valia a pena e desisti do contacto telefónico.
No entanto, para não poderem acusar-me de nada, decidi pagar a multa. Fiz mal, porque se neste país não conseguimos falar com o estado e queremos que o estado venha ter connosco, é só deixar de pagar qualquer coisa e é garantido que alguém vai logo aparecer. Mas não o fiz. Resolvi ser honesto (parvo?) e paguei a multa.
Por uma questão de princípio, achei que me devia recusar a deslocar-me à repartição de finanças, pois se temos telefones e e-mail, que supostamente deviam funcionar para o atendimento do contribuinte, eu não devia ser forçado a ter que ir perder horas para a fila da repartição.
E até hoje ainda não fui lá. Até hoje. Porque infelizmente, continuei a insistir nos e-mails para vários endereços e continuei sem receber resposta a nenhum deles. Continuei a insistir nos telefonemas e continuei sempre a ser passado de um lado para o outro como uma bola de ping-pong, sem conseguir falar com alguém que me diga alguma coisa de jeito. E continuei sem os meus 50 Euros e sem a situação resolvida.
Portanto acho que vai ter que ser e hoje vou ter de perder o resto da manhã na repartição de finanças para tratar disto, porque aproxima-se o prazo de entrega das declarações de IRS e eu não pretendo entregar ou pagar absolutamente nada enquanto não tiver resolvida esta questão.
Continuamos a viver num país de faz-de-conta, em que à superfície as coisas são muito bonitas mas por dentro os podres são mais que muitos e o funcionamento da coisa vai de mal a pior...
Leis? Quais leis?
Percebi recentemente que o que eu pensava da nova lei do tabaco afinal está a acontecer - demorou mais do que eu esperava mas infelizmente está a acontecer: Portugal está a ignorar a nova lei do tabaco.
Em discotecas, bares, restaurantes, cafés, etc... já se fuma novamente em todo o lado. Eu já esperava que isto acontecesse porque em Portugal existe uma tradição com dezenas de anos, que consiste puramente em ignorar as leis. Esta não podia ser excepção.
O que é interessante é o eventual motivo para a demora.
Como todos sabemos, a ASAE (site vergonhoso, btw) anda a apertar com tudo e mais alguma coisa, para que se cumpram as legislações disto e daquilo. No entanto, parece que a aplicação da nova lei do tabaco ficou esquecida algures no aether.
As notícias sobre as contra ordenações levantadas pela ASAE são um pouco inconsistentes, dado que numa avançam com um número de processos e noutra já dão outros valores para a mesma altura. Mas parece que lá vão fazendo umas coisitas por aqui e por acoli - ou pelo menos assim o anunciam, para não parecer muito mal.
Mas uma coisa é certa: neste país as leis servem para o mesmo que o papel higiénico.
E ainda outra vez, a nova lei do tabaco
Antes de mais, quero deixar desde já bem claro que não tenho nada, só por si, contra as pessoas que fumam. Aliás, algumas até merecem o meu respeito extra por compreenderem que nem toda a gente gosta de levar com fumo de tabaco, e por isso mesmo deslocam-se para fora do restaurante, para longe de não-fumadores, etc.
Posto isto...
Parece que foi desta.
Entrou hoje em vigor a "nova lei do tabaco", que para além das regulamentações já em vigor desde 1982, vai impor mais restrições aos locais onde é permitido fumar.
No entanto já se levantaram vozes de protesto, como não podia deixar de ser, tamanha injustiça é esta decisão do governo. Afinal qual é a lógica de proibir o fumo de tabaco numa discoteca, por exemplo? Nenhuma, não é verdade? E por isso mesmo é que já há uma petição criada para que a lei seja mudada e permita os donos de locais de diversão, escolherem se o seu estabelecimento vai ser livre de fumo ou não.
É que, como disse o nosso querido ex-ministro da saúde, Luís Filipe da Conceição Pereira, em 2005, "quem vai a estes sítios sabe o que o espera". Mais triste ainda é que essa "justificação" anda na boca do povo, como se fizesse todo o sentido, e de onde se deriva o conselho "quem não gosta não frequenta".
Ora, se eu for a um desses locais já sei o que me espera, ou seja, sei que vai haver fumo de tabaco. Como eu não gosto de fumo de tabaco e não gosto que me forcem a inalá-lo contra a minha vontade, não frequento esse tipo de locais. Porquê? Só fumadores é que se podem divertir?
Mas nem vou por aí. Tudo bem, poderia até admitir que se estabelecesse que estabelecimentos de diversão serão locais onde se fuma e ponto final, quem não gosta não vai e o que eu queria era que fizessem estabelecimentos de diversão discriminantes, onde não se fumasse.
Mas vamos extrapolar isto para algo mais genérico:
Imaginemos que existe um acto que é altamente prejudicial para qualquer pessoa.
O referido acto não é uma necessidade básica para o ser humano.
Adicionalmente, há quem considere que esse acto lhes proporciona algum prazer e por isso praticam-no frequentemente.
Outras pessoas consideram esse acto extremamente incomodativo, para além de prejudicial para a sua saúde.
Colocam-se então duas questões:
Questão 1: como podem coexistir ambos os tipos de pessoas, os que gostam e os que não gostam, sem que nenhum tenha que se privar dos seus direitos - uns de praticar o acto e outros de não serem incomodados ou prejudicados pelo mesmo?
Questão 2: Para situações em que não é possível responder à questão 1, qual dos dois tipos de pessoa deverá abdicar do seu direito?
A resposta à primeira questão é simples: separando os dois tipos de pessoas e isolando-os um do outro. Assim os que gostam de praticar o acto, podem continuar a fazê-lo sem incomodar ou prejudicar os que se sentem incomodados.
Mas a segunda questão complica as coisas e é a base de muitas discussões fervorosas. Se não houver hipótese de isolar os dois tipos de pessoas, um deles tem de sair prejudicado. Das duas uma: ou quem gosta não pratica o acto, ou quem não gosta tem de sofrer o incómodo e prejuízo do mesmo.
Qual destas é a opção correcta?
Tentemos ver a coisa de uma forma geral, sem entrar em pormenores idiotas para tentar puxar a sardinha mais para um lado ou mais para o outro, como é tão típico de se fazer numa discussão acerca de tabaco.
Um dos direitos tem de ser abolido. Como escolher? Qual deles é mais importante? Não se aplica o argumento de ser justo ou não, porque sendo um direito, qualquer que seja a escolha, vai sempre haver alguma injustiça, pelo facto de uns terem de abdicar do seu direito para que os outros mantenham o seu. Então como se toma uma decisão destas? Há que ver a tal importância de cada um dos direitos.
Um deles, o primeiro, é o direito do livre arbítrio, de alguém poder fazer algo apenas porque lhe apetece.
O outro, o segundo, é o direito a alguém não ser incomodado e, mais importante, prejudicado por um acto levado a cabo por outra pessoa.
Abolir o primeiro (solução A) não tem necessariamente repercussões negativas, para além da óbvia de se estar a retirar um direito a alguém. E é importante realçar o "necessariamente", porque pode sempre ser argumentado que alguém se poderia sentir posto à margem da sociedade e toda uma série de outros traumas psicológicos, por lhe ser privado o seu direito a exerver o acto de que tanto gosta.
Já abolir o segundo (solução B) é mais complicado, pois passamos de uma situação em que temos a certeza de que ninguém vai ser prejudicado por algo que não quer, para uma situação em que é possível essas pessoas serem prejudicadas pelo referido acto. Aqui também é de realçar que é apenas possível e não um facto, o alguém ser prejudicado.
Temos então duas possíveis soluções, cuja escolha se pode basear em estatística. Nenhuma delas é necessariamente má, portanto temos que escolher aquela que tem mais probabilidade de ter efeitos negativos.
Parece-me óbvio que, e agora voltando ao tema específico do tabaco, é muito menos provável alguém se tornar um assassino em série por ver os seus direitos privados, do que alguém vir a sofrer de problemas respiratórios devido a inalar fumo de tabaco.
Assim sendo, a solução correcta seria a B.
Acho interessante eu ter tido que escrever tanto para descrever algo que para mim, na minha cabeça, é mais que lógico e nem sequer tem argumentação possível. Não admira que haja tanta gente com ideias malucas em relação ao tabaco... não é tão simples quanto parece... ou se calhar até é e as pessoas é que não são capazes de ver as coisas de forma simples, lógica e racional.
Felizmente o Almada Fórum, que é dos poucos estabelecimentos comerciais de grandes dimensões que de tempos a tempos frequento, já tem lá os avisos há uns bons dias. Claro que têm um bom departamento de marketing, o qual aproveitou a situação da nova lei para fazer um bocadinho de publicidade quase-enganosa: "Respire melhor", dizem eles nos cartazes... como se antes da nova lei eles pensassem "epá, nós até achamos que os não-fumadores têm razão e queríamos poder dar-lhes um ambiente melhor neste nosso espaço mas epá, não dá, e tal...".
Sendo obrigados a cumprir uma lei que não lhes agrada (se agradasse não precisavam que entrasse em vigor uma lei para proibir o fumo de tabaco no estabelecimento e já o tinham feito há mais tempo), conseguiram dar a volta à situação e fazê-los parecer agora os "bons da fita", tentando evitar que as pessoas se apercebessem de que eles afinal eram tão "maus da fita" quanto os outros estabelecimentos todos que também permitem que se fume lá dentro, vá-se lá saber porquê...
Não ao Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Não sei se todos vós sabem mas querem assassinar mais um pouco a nossa língua: vamos passar a escrever em "Brasilês"...
Chamem-me conservador (não acho que o seja) mas considero isto uma estupidez. Não me oponho à evolução de uma língua mas isto não é evolução, isto é política.
Quem quiser perceber um pouco melhor o porquê: http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2007&m=11&d=29&uid=&i...
Assinem, se concordarem. Custa-vos apenas um minuto mas pode ser que ajude de alguma forma a "salvar" a nossa língua.
E ainda o tabaco...
Fiquei ontem a saber que a "nova" lei do tabaco já sofreu mais alterações e que pequenos cafés e restaurantes vão mesmo ter a liberdade de escolher se querem ser para fumadores ou não-fumadores.
Neste momento não tenho paciência alguma para escrever sobre isto, porque depois de ontem ter tentado estar num restaurante durante 45 minutos e ter tido que me vir embora por causa do fumo de tabaco, a minha única vontade é partir a cara a alguém.
Vou antes fazer minhas as palavras do Pedro neste excelente post do seu site: http://www.macacos.com/?p=1194
A "nova" nova lei do tabaco
Vi hoje uma notícia que me agradou bastante:
http://www.rtp.pt/index.php?article=137641&visual=16
Mais vale tarde que nunca
A nova lei anti-tabaco vai proteger a todo o custo os não fumadores. Contra o fumo passivo a nova lei vai reduzir ainda mais os locais onde se pode fumar livremente.
A lei vai impor a proibição de fumar nos locais de trabalho. Ressalva no entanto a possibilidade das empresas criarem locais específicos para se poder fumar sem afectar os colegas de trabalho.
Mas esses locais tem que ter ventilação separada do resto do edificio
Nos restaurantes, bares e discotecas a regra também muda. Vale agora a proibição total de fumar nestes locais.
A medida segue a tendência europeia já aplicada nos países nórdicos ou na Irlanda. No caso da Irlanda e desde este ano é proibido fumar em bares restaurantes.
Os lares de idosos e locais frequentados por menores de 16 anos ficam também vedados ao fumo.
A nova lei anti fumo do tabaco quer proteger os fumadores passivos mas também quem nunca fumou na vida. Assim avança a proibição da venda de cigarros a menores de 18 anos. Essa proibição aplica-se também às máquinas de venda automática de tabaco.
A forma de controlar o acesso à compra directa nessas máquinas ainda não está decidida, mas pode ser seguido o exemplo de outros países através de um cartão de acesso.
A lei, logo que esteja aprovada, contempla ainda uma revisão em alta das multas aplicadas a quem não a cumprir. Multas que se multiplicam por 50 em relação às que estão em vigor. Quem fumar num local proibido pode ser multado de 50 a 2500 euros.
A nova lei proíbe toda a publicidade ou promoção ao consumo de tabaco com multas até so 30 mil euros para as empresas.
Há mais um dado: as tabaqueiras ficam proibidas de lançar ou patrocinar campanhas de prevenção contra os cigarros. Quem não cumprir pode ter que pagar 30 a 45 mil euros de coima.
A proposta de lei anti-tabaco tem a sua base técnica já completa mas ainda vai ser discutida politicamente no conselho de ministros.
Jorge Correia / Antena 1
2004-11-17 10:40:34
Agora é que vão ser elas, os fumadores, coitadinhos deles, que não têm direitos nenhuns, vão revoltar-se e tomar de assalto a assembleia da república como forma de protesto por esta violação dos seus direitos básicos à violação dos direitos básicos dos outros... ;)
Este país está ao contrário
Noutro dia estava eu na paragem de autocarro, quando começo a sentir o cheiro de fumo de tabaco queimado. Olhei para o lado e lá estava a chaminé de onde emanava esse odor repugnante. Com a maior descontração do mundo, um senhor na casa dos 50, fumava o seu charuto e mandava para cima das restantes pessoas, sem qualquer tipo de problema aparente, o fumo do prego de caixão que segurava entre os dedos.
Pedi-lhe delicadamente que se afastasse ou então que apagasse o charuto, pois o fumo estava a incomodar e prejudicar as outras pessoas que se encontravam na paragem. O meu pedido foi recebido como tantos outros pedidos semelhantes o são na esmagadora maioria das vezes: "Mas quem é que vocês julga que é? Julga que manda nisto tudo, é? Eu tenho o direito de fumar onde quero!"
Inocentemente, como se anos a fio de situações idênticas não me tivessem já ensinado que não vale a pena tentar argumentar com este tipo de pessoas, tentei explicar ao senhor que não se tratava de ter ou não o direito de fumar onde quisesse, até porque se fosse por aí, não tinha razão nenhuma, pois a lei proíbe que se fume em paragens de transportes públicos. Era sim uma questão de civismo e se não se lembrou que o fumo do seu tabaco iria incomodar as outras pessoas, então que acedesse ao pedido que lhe tinha sido feito, pois não lhe custava nada respeitar as outras pessoas que se encontravam ao lado dele.
Novamente as minhas palavras esbarrarm contra um muro enorme, com uma tabuleta onde se lia "estupidez aguda e falta de civismo crónica". A surpresa foi a atitude de algumas das pessoas que se encontravam na paragem, que começaram a dizer que eu "não tinha nada que estar a repreender uma pessoa de idade" e que "esta juventude já não tem respeito pelos mais velhos", entre outras coisas. A conversa acabou ali, pois virei as costas à paragem, onde deixei toda a gente ainda a barafustar, com a maior fé do mundo em como tinham toda a razão e fui a pé para o meu destino.
No dia seguinte estava em casa a estudar quando começo a ouvir um batuque que, contra a minha vontade e agrado, já me é mais do que familiar. Era o inconfundível ritmo da «kisomba», vindo da casa de uma família Africana que vive no prédio em frente ao meu.
Infelizmente esta é uma situação que se repete quase diáriamente. A minha rua sem saída, fora do centro de Almada e encostada à mata do Alfeite da Marinha, outrora pacata e sossegada, com velhotes à janela a ler o jornal e a dizerem "boa tarde" quando eu passava, é agora, após a maioria deles ter morrido, o equivalente a um bairro social em miniatura. O que os donos dos prédios querem é receber o dinheiro da renda, não se preocupam com nada mais. Graças a isso, vêm para cá morar pessoas com hábitos bastante questionáveis.
Farto de situações destas, decidi ir pedir ao meu vizinho que baixasse um pouco o volume da música. Enquanto me dirigia para o prédio do outro lado da rua, relembrava as inúmeras situações em que as famílias africanas e brasileiras que aqui vivem agora me interromperam o estudo a meio da tarde, me interromperam o trabalho a meio da manhã, me interromperam o sono a meio da noite, sempre com música e vozes altas. Relembrava as vezes em que um vizinho ou vizinha, furiosos com o barulho, chamavam a polícia, e que, após serem repreendidos e depois de verem o carro da polícia a virar a esquina ao fundo da rua, os perpetradores voltavam a pôr a música tão alta quanto estava ou mais alta ainda. Tentava fazer com que as lembranças das várias vezes em que chegavam da discoteca às 6:30 da manhã e acordavam a vizinhança toda com a conversa em voz alta (que, para eles, é a voz normal), enquanto outros membros do grupo urinavam contra a parede do meu prédio ou até para o meio da estrada, não me elevassem o nível de irritação ao ponto de não conseguir ser educado no pedido que estava prestes a fazer.
Toquei à campaínha. O volume da música baixou de imediato e oiço uma voz masculina com sotaque Africano perguntar do interior: "quem é?"
O meu vizinho abriu a porta e eu disse: "Boa tarde. Vinha pedir-lhe que baixasse um pouco o volume da sua música, porque eu estou a tentar estudar e com o barulho não sou capaz."
Sendo uma pessoa que até me falava bem na rua (dizia-me bom dia e boa tarde, o que, tendo em conta o quanto estas famílias falam com outras pessoas da rua, era muito bom), não esperava a resposta que levei. Perguntou-me, num tom semi-irritado: "Eu baixo a música mas quero que me explique uma coisa: o seu pai já cá veio noutro dia também pedir para eu não ouvir música, agora vem também você, portanto me diga, afinal quando é que eu posso ouvir música? Eu estou em minha casa, tenho ou não tenho o direito de celebrar? Ainda por cima hoje é meu dia de folga! Porque não posso ouvir música?"
Nesta altura vi logo que a situação não ia ser fácil e tentei explicar calmamente que ele podia ouvir música quando quisesse, desde que não incomodasse os vizinhos. Óbviamente que ele retorquiu que a música não incomodava nada e eu, depois de tentar mais uma vez ter uma conversa racional e civilizada, fiz o que se faz às crianças: disse que sim, tudo bem, tem razão no que quiser mas não ponha a música tão alta porque não pode incomodar os seus vizinhos assim.
Naquele momento ele acedeu ao meu pedido mas cerca de uma hora depois, a música já havia novamente ondas sonoras vindas da casa dele a embater na minha janela com toda a força...
Estes dois tipos de situações (pessoas a fumarem onde não devem e vizinhos com música alta e a falar alto na rua a qualquer hora do dia ou da noite) são coisas com que eu tenho de lidar quase diáriamente, sendo ambas coisas proíbidas por lei. No entanto, quando a polícia é chamada a intervir, o que é que acontece? No primeiro caso, tanto podem rir-se e dizerem que têm mais que fazer do que andar a multar pessoas que estão a fumar como podem dizer que eu é que tenho de resolver a situação. No segundo caso, ou dizem que não podem fazer nada porque as pessoas depois voltam a fazer barulho, ou então dizem que mandam já alguém para o local e depois nunca aparece ninguém.
Se há coisa que me faz confusão à cabeça é porque é que a nossa sociedade considera as pessoas que querem ser normais e saudáveis (não ter de respirar fumo de tabaco, viver num sítio sossegado e sem vizinhos barulhentos, etc, etc), como inadaptados, os "freaks", os anormais. Pedir a alguém que não fume porque nos está a incomodar e prejudicar é quase uma ofensa! Chamar as autoridades para tratar desse assunto então é o cúmulo do ridículo! Porquê?
Isto faz com que se chegue a um ponto em que essas pessoas podem simplesmente rebentar, dar em loucas. Depois, quando rebentam, são presas porque agridem os vizinhos Africanos que todos os dias durante anos a fio puseram a música em altos berros mesmo sendo proíbdo, chamam nomes às pessoas que estão a fumar na paragem de autocarro mesmo sendo contra a lei, etc, etc. Racista, xenófobo, violento e mal-educado... são algumas das coisas que imagino que eu seria chamado se num momento de explosão fizesse uma dessas coisas, derivado da insanidade mental causada por anos e anos a fio de ter que lidar com o prejuízo que o incumprimento de leis me causa, de ter que lidar com o facto de não ter um único sítio onde possa ir sem ter que respirar alcatrão e nicotina em segunda mão, de ter que lidar com o facto de que se pedir para não fumarem ao pé de mim sou considerado "coitadinho", de ter que lidar com o facto de que quando peço educadamente para os meus vizinhos não fazerem barulho eles me respondem mal-educadamente...
Eu não sou racista e não quero proíbir nenhum Africano de ouvir a sua música (ou de qualquer outra etnia - palavra socialmente correcta equivalente a "raça" mas que é usada no seu lugar por forma a não ferir susceptibilidades). Também não quero proíbir ninguém de fumar o seu cigarro. Só quero é que não tenha de ser prejudicado por estas coisas. Mas sou. Constantemente. E sem poder fazer nada quanto a isso.
Apesar de tudo isto, se um dia eu tomar uma atitude menos agradável derivada dessa "insanidade mental", seja chamar nomes ou seja tornar-me violento, quem vai perder a razão, quem vai ser o agressor, quem vai ser o mal-educado, quem vai ser o racista, quem vai ser o xenófobo e quem vai ser preso, sou eu.
Assim sendo, prevendo já o que o futuro me reserva, vou fazer como tantos outros meus compatriotas fazem diáriamente e vou borrifar-me na lei e fazer o que me apetece: declaro desde já que não sou responsável por quaisquer danos, morais ou físicos , que possa infligir a terceiros, por estes estarem a tomar uma atitude que demonstre total e absoluta falta de civismo e respeito para com as outras pessoas, como por exemplo, recusar-se a apagar um cigarro ou recusar-se a baixar o volume da música que está a ouvir, quando qualquer uma destas coisas estiver claramente a prejudicar as pessoas ao seu redor.
Faz sentido não faz? E de alguma forma devo conseguir safar-me com isto. Afinal estamos em Portugal, o país da chico-espertice e do desenrasca (ciência essa de que tanto nos orgulhamos), portanto não deve ser de todo impossível...
Este país está mesmo ao contrário...
