Conversas avulso 2 - Rotundas

Hoje aconteceu-me algo que já aconteceu muitas outras vezes: alguém que não sabe o código da estrada quase me arrancar a parte da frente do carro quando se atravessa à minha frente no meio de uma rotunda. A diferença é que hoje decidi fazer algo quanto a isso.

Sinal vermelho numa rotunda de duas faixas e por onde passa o elétrico de Almada (sim, aquilo é um eléctrico, não é um “metro”). Páro na faixa de fora e ligo o “pisca” para a direita, pois ia sair da rotunda na próxima saída. Ao meu lado, na faixa de dentro, está outro carro parado, sem “pisca” ligado.

Quando o sinal passou a verde, avançámos ao mesmo tempo mas reparei que o outro carro teve um arranque mais brusco e ouvi a condutora gritar “estás armado em chico-esperto, não estás?”, ao mesmo tempo que acelerava numa tentativa vã de se atravessar à minha frente e passar na diagonal pela minha faixa para poder sair da rotunda na saída que estava a escassos metros do meu carro. Digo tentativa vã porque o carro dela era ainda mais podre que o meu, pelo que não conseguiu acelerar para me ultrapassar mas mesmo assim virou repentinamente para a direita e só não me bateu porque eu travei a fundo. Claro que, depois da bonita acção e enquanto seguia o seu caminho, a senhora continuou a esbracejar e a barafustar umas quaisquer palavras que já não consegui compreender mas que certamente seriam bastante coloridas.

Se quisesse dramatizar a situação, diria que tinha ficado uns segundos parado ali, de boca aberta e incrédulo, mas a realidade é que já estou habituado a condutores destes e por isso não me espanta este tipo de atitude. Infelizmente continua a incomodar-me, e se noutros dias teria ficado simplesmente irritado e continuado o meu caminho, hoje decidi que não ia ser assim.

Até calhou bem, porque a senhora estava a fazer o mesmo caminho que eu, por isso quando ela estacionou o carro nem dois minutos depois do ocorrido, eu aproveitei para parar ao lado dela e, sabe-se lá como, até consegui falar de forma educada:

Eu - Bom dia. Espero que compreenda que não fiz de propósito. A senhora estava parada do lado de dentro da rotunda e sem pisca, eu pensei que não ia sair logo naquela saída.

Ela (num tom de vez chateado) - Como é que pensou isso? Então eu não tinha o pisca ligado? Não estava a ver que eu ia sair da rotunda? Se tinha o pisca ligado é porque ia sair da rotunda, você não tinha nada que se pôr ao meu lado!

Eu - Quando eu parei ao seu lado não tinha o pisca ligado.

Ela - Pois, liguei-o depois, e qual é o mal?

Eu - Não tem mal nenhum, desde que não se tivesse atravessado à minha frente. Já viu que podia ter causado um acidente sem necessidade nenhuma? Viemos pelo mesmo caminho e eu cheguei aqui ao mesmo tempo que a senhora, por isso não ganhou tempo nenhum.

Ela - Mas você não sabe que as rotundas se fazem por dentro e quando se liga o pisca é porque se vai sair? Não conhece a nova lei das rotundas?

Eu - Minha senhora, as rotundas fazem-se por dentro até um certo ponto. Quando se quer sair, deve fazer-se uma aproximação gradual da faixa de fora e já se deve estar nessa faixa exterior quando nos aproximamos da saída que pretendemos.

Ela (quase possessa por satanás ele próprio) - Mas eu tinha o pisca ligado!!

Eu - Oiça, não tinha mas imaginemos que podia até ter ligado o pisca quando eu cheguei ao seu lado - isso não lhe dá razão. Aquilo a que chamamos “pisca” serve para indicar que vamos mudar de faixa de rodagem; não serve para dizer “atenção, parem todos que eu vou sair da rotunda que nem uma campeã!” Para além disso, e para azar o seu, isto é um debate que eu já tenho há anos, por isso conheço essa lei de que fala melhor do que imagina e garanto-lhe que o que me está a dizer não só não é o que a lei diz, como também não faz sentido nenhum.

Ela (e neste momento quase que juro que um dos olhos lhe estava quase a saltar) - Mas eu vinha por dentro como diz a lei e tinha o pisca ligado!!!

Eu (e neste momento tinha perdido a paciência e desisti de ser educado) - OK, tinha o pisca ligado. Então e diga-me lá, você quando vai numa recta de várias faixas e a conduzir na faixa da esquerda, como certamente fará com frequência, dado o nível de inteligência para a condução que está aqui a demonstrar, também sinaliza que vai mudar de faixa e depois atira-se para cima dos carros que circulam à sua direita? Acha que só porque tem o sinal de mudança de direcção ligado ganha o direito a mudar de faixa e que todos os outros condutores têm de parar só para a deixar passar? Numa auto-estrada também iria fazer isto para poder sair na saída que pretendia ou ia abrandar antes da saída, chegar-se gradualmente para a faixa da direita sem pôr em perigo outros carros, e aí sim, sair em segurança? Ou melhor ainda, se fosse uma rotunda maior, uma rotunda com 5 faixas, também se tinha posicionado na faixa de dentro mesmo antes da saída que queria e depois também se tinha atravessado à frente dos outros 4 carros só para conseguir sair ali? Aí os outros 4 condutores também estavam armados em chico-esperto ou você é que estava a ser estúpida que nem uma porta? Você não vê que o comportamento que está a defender é incorrecto, ilógico e irresponsável? É mesmo assim tão idiota?

Um macaco deveria ter considerado este meu discurso extremamente eloquente, porque a senhora ficou parada durante dois ou três segundos a olhar para mim, com um ar confuso na cara, de lábios entreabertos como quem queria dizer algo mas tinha os três neurónios demasiado ocupados a tentar processar o que acabara de ouvir, sendo por isso incapaz de dispensar o tremendo esforço mental necessário para vociferar quaisquer sons, quanto mais formar com estes palavras ou até frases coerentes e lógicas, aptidão essa certamente reservada a espécies alienígenas dotadas de um intelecto superior.

Enfiou-se novamente no carro e arrancou - sem fazer sinal nem esperar que o caminho estivesse livre, claro, o que lhe ia valendo ficar debaixo de um autocarro da TST que por acaso a viu a tempo de travar.

Noutro dia isto teria sido o suficiente para mim mas hoje não. Hoje estava determinado a tornar o mundo um lugar melhor mas como encontrar a cura para o câncro dá muito trabalho, optei por ensinar uma lição a esta senhora, para que ao voltar para a sua tribo ela pudesse passar a palavra e assim ensinar várias criaturas de uma só vez.

Fui atrás dela e felizmente ela dirigiu-se para onde eu desejava: outra rotunda. Não só ficava de caminho para mim, como ainda me permitia fazer o que há anos eu desejava fazer.

Situação exactamente igual à anterior: semáforo vermelho noutra rotunda de duas faixas, eu do lado de fora e ela do lado de dentro da rotunda. Semáforo passa a verde, avançamos os dois ao mesmo tempo, eu faço sinal para sair na saída que estava à nossa frente e ela, desta vez sem sequer se preocupar com o “pisca”, atravessa-se novamente à minha frente. A diferença é que na situação anterior eu dei-me ao trabalho de travar…

Escusado será dizer que, após a colisão, a maravilhosa criatura saiu do carro dela a gritar comigo e a exibir a variedade do seu vernáculo mais explícito com uma tenacidade digna de um galo da Índia homosexual em época de acasalamento.

Como eu já vinha de trás a pensar nesta possibilidade, já tinha o número da GNR preparado no telemóvel e nem me dei ao trabalho de sair do carro para ligar.

“Está sim, GNR? Olhe, eu lamento estar a ocupar o vosso tempo com isto mas uma senhora bateu-me no carro no sítio X e está com uma atitude agressiva e sem querer cooperar no preenchimento da declaração amigável. Será que há algum carro patrulha que esteja pela zona e que possa passar por cá? Sim? OK, muito obrigado.”

Após o telefonema saí do carro e sentei-me num banco no passeio, a jogar 2048 enquanto esperava pela polícia e a senhora criatura me deleitava com a variedade de formas disponíveis para um ser humano se humilhar exibindo ferozmente o seu analfabetismo e grunhice.

Felizmente nem dois minutos passaram até a polícia chegar. Um dos agentes pediu-nos a identificação enquanto o outro olhou para os carros, perguntou que condutor conduzia cada carro e ao receber a resposta, virou-se para a senhora criatura e perguntou “mas a senhora tem dúvidas quanto ao que se passou aqui?” Claro que ela disse que não e explicou a sua teoria da “nova lei das rotundas”, face à qual o agente da GNR teve de esconder um sorriso e lá disse à senhora que ela estava errada.

Ela olhou para a minha cara, onde estava estampado um sorriso de orelha a orelha. Não resisti e expliquei ao agente o que se tinha passado anteriormente, o que resultou num sermão para a senhora criatura sobre o código da estrada, sobre condução responsável, sobre civismo, e ainda uma ameaça de apreensão de carta de condução se o caso se repetisse. Só com esta última é que a senhora parou de refilar mas a tromba de estúpida idiota manteve-se.

A declaração amigável lá foi preenchida de forma não muito amigável, com a senhora a escrever lá que se dava como culpada. O meu carro não teve absolutamente nada, pois o carro da criatura “bateu” (foi mais encostar e arrastar) no pára-choques do meu, que é de plástico e rijo como tudo, mas ambas as portas do lado direito do carro dela ficaram amolgadas e riscadas.

Tomara que houvesse mais dias a começar assim!