Português do "ssebem"

Já repararam na quantidade de erros de Português que se cometem, hoje em dia? É nas televisões, é em anúncios, é nas legendas de filmes, é em jornais… é por todo o lado!

Mas não vem de agora. Esta calamidade linguística já se vem a anunciar de há uns anos para cá. Há dois anos atrás escrevi este texto sobre este problema e disse que se ia tornar num problema grave. Poucas pessoas concordaram comigo. E agora, o que dizem?…

Cada vez mais vejo o nível do Português da maioria dos jovens a decair de uma forma inaceitável. Ele é trocarem a posição do hífen (o “tracinho”) nas palavras, é colocarem vírgulas nos sítios errados, pontos finais no lugar de vírgulas, não usarem nem pontos finais nem vírgulas, não saberem como se escrevem metade das palavras que dizem… Afinal, o que se anda a passar pela cabeça de professores, pais e juventude em geral, para terem deixado a “língua de Camões” chegar ao estado a que chegou?

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Onde noto mais isto é nos frequentadores assíduos de IRC! Faz sentido, pois no IRC, o que antes era feito para encurtar o tempo que se demorava a escrever, tomou uma nova dimensão, tornou-se moda e parece até conferir estatuto social, a julgar pela quantidade de gente que hoje em dia escreve tão mal.

Refiro-me aos “xim” quando a palavra seria “sim”, aos “apanha-se” quando o que se pretendia escrever era “apanhasse” (tempos verbais diferentes), aos “issuh” quando o significado é suposto ser “isso”… Acham muita piada a esta forma de “comunicar”, sem se aperceberem que na maior parte dos casos a transportam para a escrita do dia-a-dia.

Poucas são as pessoas que conheço que, escrevendo assim no IRC, conseguem escrever correctamente noutro contexto. Sim, porque isto parece um vírus que se alastra assustadoramente! Isto é, para além de escreverem assim no IRC, escrevem da mesma forma seja num e-mail para um amigo ou num fórum de discussão, seja num comentário deixado online para todos lerem. Provavelmente só não escrevem assim nos trabalhos escolares que são para os professores verem, porque nos outros… Será que quem faz isto se apercebe? Será que estão tão “cegos” com o vício de escrever neste calão cibernáutico, que já não distinguem o correcto do errado? Ou será que simplesmente não se preocupam, que declinam a sua condição de cidadãos portugueses, deixando-se “clonar” por estilos e formas de comportamento estereotipados, justificando a sua rendição a uma moda com um simples «porque me dá mais jeito» ou porque assim é que é “ssebem” (ex-“tásse bem”)?

E aqui chegamos a outro ponto interessante. Já perguntei a alguns jovens porque escrevem desta maneira. A maior parte, afirma de facto que é por lhe dar mais jeito. Mas agora pergunto, como raio é que dá mais jeito escrever “issuh” em vez de escrever “isso”? Tem mais uma letra que nem está perto das outras (olhem para um teclado) e o U que substitui o O torna a escrita da palavra mais desconfortável - em vez de deslocarem o dedo do I para o O, deslocam-no para o U, tendo assim que esticar o dedo em vez de o relaxar! Experimentem para perceberem.

Qual é o gozo que dá trocar as letras de uma palavra? Quando se começou a fazer isso há uns anos atrás, era para encurtar uma palavra mas mesmo assim esta ficava reconhecível - refiro-me a trocar os “qu” por um “k”. Acho que isto até era aceitável. Mas o que se faz hoje em dia é completamente ridículo.

Trocam-se letras por outras sem que isso vá ajudar em nada (trocar os “s” por “x”, por exemplo), por vezes até confundindo quem está a ler pois a palavra passa a poder ler-se de duas maneiras e quem escreve nem pensa nisso.

Acrescentam-se letras à palavra, como no caso do"issuh" ou do “gaijo”. Esta é das que mais confusão me faz, pois não vejo a lógica disto, tal como já expliquei acima.

Por último vem o que talvez seja o pior caso de todos, que é a transformação completa de uma palavra, como é habitual ver-se com o “não” que passa a ser “num” ou simplemente “n”. Este último caso (só o “n”) entende-se na maior parte das vezes. O problema é quando em vez de “não” o “n” significa “nunca”, ou “nada” ou qualquer outra coisa começada por “n”. A título de curiosidade, o “nunca” muitas vezes também é transformado em “nc” e o “nada” em “nd”.

Estamos provavelmente a assistir ao nascimento de um novo tipo de calão. Mas até há quem ache isso normal na evolução de uma língua…. O problema coloca-se quando esta “nova linguagem” sai do IRC . Hoje em dia já vejo erros destes na televisão, em revistas, jornais, produtos de consumo… Onde vamos parar? Será que quem escreve desta maneira pensa que, de futuro, se escrever uma carta para o patrão ele vai perceber alguma coisa do que lá está? Bom, se as coisas continuarem a evoluir desta forma, até é provável que perceba, dado que escreverá da mesma forma…

Antes de terminar quero deixar aqui claro que não ganhei nenhum prémio nobel da literatura. Ou seja, dou erros como toda a gente, não sou nenhum escritor exímio. A diferença está no modo como olho para os meus erros. Eu tento evitá-los e corrigi-los, ao passo que a maior parte do pessoal parece tentar duplicá-los…

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