Noutro dia estava eu na paragem de autocarro, quando começo a sentir o cheiro de fumo de tabaco queimado. Olhei para o lado e lá estava a chaminé de onde emanava esse odor repugnante. Com a maior descontração do mundo, um senhor na casa dos 50, fumava o seu charuto e mandava para cima das restantes pessoas, sem qualquer tipo de problema aparente, o fumo do prego de caixão que segurava entre os dedos.
Pedi-lhe delicadamente que se afastasse ou então que apagasse o charuto, pois o fumo estava a incomodar e prejudicar as outras pessoas que se encontravam na paragem. O meu pedido foi recebido como tantos outros pedidos semelhantes o são na esmagadora maioria das vezes: “Mas quem é que vocês julga que é? Julga que manda nisto tudo, é? Eu tenho o direito de fumar onde quero!”
Inocentemente, como se anos a fio de situações idênticas não me tivessem já ensinado que não vale a pena tentar argumentar com este tipo de pessoas, tentei explicar ao senhor que não se tratava de ter ou não o direito de fumar onde quisesse, até porque se fosse por aí, não tinha razão nenhuma, pois a lei proíbe que se fume em paragens de transportes públicos. Era sim uma questão de civismo e se não se lembrou que o fumo do seu tabaco iria incomodar as outras pessoas, então que acedesse ao pedido que lhe tinha sido feito, pois não lhe custava nada respeitar as outras pessoas que se encontravam ao lado dele.
Novamente as minhas palavras esbarrarm contra um muro enorme, com uma tabuleta onde se lia “estupidez aguda e falta de civismo crónica”. A surpresa foi a atitude de algumas das pessoas que se encontravam na paragem, que começaram a dizer que eu “não tinha nada que estar a repreender uma pessoa de idade” e que “esta juventude já não tem respeito pelos mais velhos”, entre outras coisas. A conversa acabou ali, pois virei as costas à paragem, onde deixei toda a gente ainda a barafustar, com a maior fé do mundo em como tinham toda a razão e fui a pé para o meu destino.
No dia seguinte estava em casa a estudar quando começo a ouvir um batuque que, contra a minha vontade e agrado, já me é mais do que familiar. Era o inconfundível ritmo da «kisomba», vindo da casa de uma família Africana que vive no prédio em frente ao meu.
Infelizmente esta é uma situação que se repete quase diáriamente. A minha rua sem saída, fora do centro de Almada e encostada à mata do Alfeite da Marinha, outrora pacata e sossegada, com velhotes à janela a ler o jornal e a dizerem “boa tarde” quando eu passava, é agora, após a maioria deles ter morrido, o equivalente a um bairro social em miniatura. O que os donos dos prédios querem é receber o dinheiro da renda, não se preocupam com nada mais. Graças a isso, vêm para cá morar pessoas com hábitos bastante questionáveis.
Farto de situações destas, decidi ir pedir ao meu vizinho que baixasse um pouco o volume da música. Enquanto me dirigia para o prédio do outro lado da rua, relembrava as inúmeras situações em que as famílias africanas e brasileiras que aqui vivem agora me interromperam o estudo a meio da tarde, me interromperam o trabalho a meio da manhã, me interromperam o sono a meio da noite, sempre com música e vozes altas. Relembrava as vezes em que um vizinho ou vizinha, furiosos com o barulho, chamavam a polícia, e que, após serem repreendidos e depois de verem o carro da polícia a virar a esquina ao fundo da rua, os perpetradores voltavam a pôr a música tão alta quanto estava ou mais alta ainda. Tentava fazer com que as lembranças das várias vezes em que chegavam da discoteca às 6:30 da manhã e acordavam a vizinhança toda com a conversa em voz alta (que, para eles, é a voz normal), enquanto outros membros do grupo urinavam contra a parede do meu prédio ou até para o meio da estrada, não me elevassem o nível de irritação ao ponto de não conseguir ser educado no pedido que estava prestes a fazer.
Toquei à campaínha. O volume da música baixou de imediato e oiço uma voz masculina com sotaque Africano perguntar do interior: “quem é?”
O meu vizinho abriu a porta e eu disse: “Boa tarde. Vinha pedir-lhe que baixasse um pouco o volume da sua música, porque eu estou a tentar estudar e com o barulho não sou capaz.”
Sendo uma pessoa que até me falava bem na rua (dizia-me bom dia e boa tarde, o que, tendo em conta o quanto estas famílias falam com outras pessoas da rua, era muito bom), não esperava a resposta que levei. Perguntou-me, num tom semi-irritado: “Eu baixo a música mas quero que me explique uma coisa: o seu pai já cá veio noutro dia também pedir para eu não ouvir música, agora vem também você, portanto me diga, afinal quando é que eu posso ouvir música? Eu estou em minha casa, tenho ou não tenho o direito de celebrar? Ainda por cima hoje é meu dia de folga! Porque não posso ouvir música?”
Nesta altura vi logo que a situação não ia ser fácil e tentei explicar calmamente que ele podia ouvir música quando quisesse, desde que não incomodasse os vizinhos. Óbviamente que ele retorquiu que a música não incomodava nada e eu, depois de tentar mais uma vez ter uma conversa racional e civilizada, fiz o que se faz às crianças: disse que sim, tudo bem, tem razão no que quiser mas não ponha a música tão alta porque não pode incomodar os seus vizinhos assim.
Naquele momento ele acedeu ao meu pedido mas cerca de uma hora depois, a música já havia novamente ondas sonoras vindas da casa dele a embater na minha janela com toda a força…
Estes dois tipos de situações (pessoas a fumarem onde não devem e vizinhos com música alta e a falar alto na rua a qualquer hora do dia ou da noite) são coisas com que eu tenho de lidar quase diáriamente, sendo ambas coisas proíbidas por lei. No entanto, quando a polícia é chamada a intervir, o que é que acontece? No primeiro caso, tanto podem rir-se e dizerem que têm mais que fazer do que andar a multar pessoas que estão a fumar como podem dizer que eu é que tenho de resolver a situação. No segundo caso, ou dizem que não podem fazer nada porque as pessoas depois voltam a fazer barulho, ou então dizem que mandam já alguém para o local e depois nunca aparece ninguém.
Se há coisa que me faz confusão à cabeça é porque é que a nossa sociedade considera as pessoas que querem ser normais e saudáveis (não ter de respirar fumo de tabaco, viver num sítio sossegado e sem vizinhos barulhentos, etc, etc), como inadaptados, os “freaks”, os anormais. Pedir a alguém que não fume porque nos está a incomodar e prejudicar é quase uma ofensa! Chamar as autoridades para tratar desse assunto então é o cúmulo do ridículo! Porquê?
Isto faz com que se chegue a um ponto em que essas pessoas podem simplesmente rebentar, dar em loucas. Depois, quando rebentam, são presas porque agridem os vizinhos Africanos que todos os dias durante anos a fio puseram a música em altos berros mesmo sendo proíbdo, chamam nomes às pessoas que estão a fumar na paragem de autocarro mesmo sendo contra a lei, etc, etc. Racista, xenófobo, violento e mal-educado… são algumas das coisas que imagino que eu seria chamado se num momento de explosão fizesse uma dessas coisas, derivado da insanidade mental causada por anos e anos a fio de ter que lidar com o prejuízo que o incumprimento de leis me causa, de ter que lidar com o facto de não ter um único sítio onde possa ir sem ter que respirar alcatrão e nicotina em segunda mão, de ter que lidar com o facto de que se pedir para não fumarem ao pé de mim sou considerado “coitadinho”, de ter que lidar com o facto de que quando peço educadamente para os meus vizinhos não fazerem barulho eles me respondem mal-educadamente…
Eu não sou racista e não quero proíbir nenhum Africano de ouvir a sua música (ou de qualquer outra etnia - palavra socialmente correcta equivalente a “raça” mas que é usada no seu lugar por forma a não ferir susceptibilidades). Também não quero proíbir ninguém de fumar o seu cigarro. Só quero é que não tenha de ser prejudicado por estas coisas. Mas sou. Constantemente. E sem poder fazer nada quanto a isso.
Apesar de tudo isto, se um dia eu tomar uma atitude menos agradável derivada dessa “insanidade mental”, seja chamar nomes ou seja tornar-me violento, quem vai perder a razão, quem vai ser o agressor, quem vai ser o mal-educado, quem vai ser o racista, quem vai ser o xenófobo e quem vai ser preso, sou eu.
Assim sendo, prevendo já o que o futuro me reserva, vou fazer como tantos outros meus compatriotas fazem diáriamente e vou borrifar-me na lei e fazer o que me apetece: declaro desde já que não sou responsável por quaisquer danos, morais ou físicos , que possa infligir a terceiros, por estes estarem a tomar uma atitude que demonstre total e absoluta falta de civismo e respeito para com as outras pessoas, como por exemplo, recusar-se a apagar um cigarro ou recusar-se a baixar o volume da música que está a ouvir, quando qualquer uma destas coisas estiver claramente a prejudicar as pessoas ao seu redor.
Faz sentido não faz? E de alguma forma devo conseguir safar-me com isto. Afinal estamos em Portugal, o país da chico-espertice e do desenrasca (ciência essa de que tanto nos orgulhamos), portanto não deve ser de todo impossível…
Este país está mesmo ao contrário…
Raúl Santos