Escolha múltipla "a descontar"

O que aqui vou dizer é algo que já penso há bastante tempo (aliás, estava a preparar este texto já há umas boas semanas), provavelmente desde os tempos do meu 12º ano mas agora que me afectou bastante (Bases de Dados, para os curiosos, mas não vou falar de nada específico de BD, somente deste métdo de avaliação), numa cadeira em que tenho perfeita noção de que sei mais que o suficiente para merecer passar (e teria passado se não fossem os descontos da escolha múltipla), torna-se ainda mais frustrante e o ridículo mais evidente.

Pessoalmente, acho que perguntas de escolha múltipla “a descontar” não fazem sentido nenhum ao nível a que trabalhamos. Farão sentido, talvez, em processos de selecção de grupos de elite, para escolher os melhores de entre aqueles que já se sabe serem os melhores. Ao nível universitário, para as pessoas avançarem no seu curso superior, não faz sentido.

Se o aluno errar, para além de não receber os pontos correspondentes à resposta, ainda perde outros.

Ou seja, o aluno é punido por errar. Que pedagogia está inerente a esta lógica? A resposta a esta pergunta é geralmente “para evitar que os alunos respondam ao calhas”. OK, vamos punir os que respondem ao calhas (assumindo que não sabem a matéria) e falham. Então e os que respondem ao calhas e acertam? À partida parece que podemos simplesmente dizer “bom, esses safam-se mas pelo menos apanhamos os outros” mas se analizarmos a situação de outro ângulo, não é bem assim.

Vejamos o lado dos que sabem a matéria.

Também é hábito de muitos professores colocarem possibilidades de resposta muito parecidas, as chamadas “rasteiras”. Ora um aluno que saiba a matéria mas que se engana por distracção, por exemplo, num sinal de uma conta, vai cair na rasteira, pois a resposta a que chegou é a resposta incorrecta mas parecida com a correcta, situação já prevista pelo professor. Ou seja, vai ser punido da mesma forma que o aluno que respondeu ao calhas e falhou.

E a grande questão é: o aluno que sabe a matéria enganou-se, ainda que um erro que por vezes poderá ser mínimo (falando de um teste de escola, claro, não da vida real), como uma mudança de sinal, mas será justo esse aluno ser punido da mesma forma e com a mesma severidade que o aluno que não sabe a matéria mas arriscou a responder?

Será justo o aluno que sabe a matéria ser punido, quando o aluno que não sabe a matéria, arrisca e acerta, não é punido?

Algumas pessoas usam esta última questão como justificação para os descontos na escolha múltipla: havendo punição, os que não sabem a matéria não arriscam, para que não acertem ao calhas. O problema é que eles vão arriscar na mesma e podem até acertar, ao passo que os alunos que sabem a matéria podem decidir não responder por medo de serem penalizados, mesmo tendo a resposta correcta.

Por exemplo, porque é que um aluno que sabe fazer um cálculo correctamente, mas se engana num sinal no meio das 10 linhas de contas que tem de fazer, chegando obviamente a um resultado incorrecto, deve ser penalizado? Porque é que interessa mais penalizar quem se engana do que valorizar quem acerta? Se se tiram valores a quem falha as respostas, porque é que não se dão valores extra a quem acerta nas respostas?

Fazendo umas “contas” simples:

Num exame com 20 questões de escolha múltipla “normal”, se um aluno falhar 6, passa no exame (supondo que todas as questões têm a mesma cotação, claro). No entanto, se as questões erradas descontarem, como é agora moda em quase todas as cadeiras, um aluno que falhe 6 questões, não passa. Sabe correctamente mais de metade da matéria (14 questões certas, 6 erradas) mas mesmo assim dizem-lhe que não sabe o suficiente para passar na cadeira, quando num teste/exame de perguntas de desenvolvimento só precisa de ter 10 valores em vinte (metade) para passar.

Qual é a lógica inerente a este tipo de avaliação?

Não estamos a jogar ao totoloto com vidas de pessoas nem nada do género que justifique sermos penalizados quando erramos, é “apenas” uma porcaria de um exame… De acordo, poderá ter um grande peso na nossa vida futura (e até isso é discutível) mas porquê dizer que mais vale não arriscar do que arriscar e errar? Que raio de mentalidade é essa? Porque raio é que eu não hei-de arriscar se acho que a resposta certa é aquela? Dizer só que é melhor não arriscar do que arriscar e errar, só por si, não tem qualquer nexo! Se nos quisessem ensinar a ser responsáveis perante situações em que temos que fazer uma escolha que vai afectar muita gente, por exemplo, aí faria sentido dizerem-nos “imaginem estão perante uma situação de desastre nuclear eminente e a vossa próxima escolha vai ditar o futuro da humanidade. boa sorte!”, mas não é esse o caso. Assim estão efectivamente a ensinar-nos a não arriscar, a não “tentar”, com todas as ramificações pedagógicas que isso pode ter - para além de estarem a prejudicar e desmotivar alunos que podiam (e muitas vezes mereciam) avançar nos seus estudos e terem as suas capacidades reconhecidas mas só vêm os seus erros apontados.

Numa nota lateral, gostaria de deixar a sugestão de investirem 20 minutos do vosso tempo a assistir a este vídeo, que está de certo modo ligado a isto que estive para aqui a debitar: http://www.ted.com/index.php/talks/view/id/66

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