Para o típico Zé Tuga, geralmente detentor de vários diplomas na área da chico-espertice, arte essa que o povo Lusitano domina com orgulho, fazer downloads de música e filmes através de redes peer-to-peer de partilha de ficheiros (eMule, bittorrent, etc.) é nada mais que uma forma de obter gratuitamente material que quer mas pelo qual não quer pagar. A linha de pensamento é geralmente algo nos moldes de “eh pá, aquela música que ouvi na rádio é mesmo fixe, deixa lá ver se consigo sacá-la da net para evitar ter que gastar uns tostões…”
Na verdade ninguém pode censurar alguém por querer poupar algum dinheiro, é uma atitude perfeitamente normal e esperada. O problema subjacente aqui é a moralidade do que está a ser feito. E mesmo essa é uma linha difícil de demarcar, pois fazer o download de uma música não é a mesma coisa que roubar uma maçã na frutaria mas ao mesmo tempo sabe-se (ou assume-se) que a intenção original do autor da música era que o público a comprasse e não que a obtivesse gratuitamente.
Algumas das pessoas que fazem downloads de música ou filmes, acabam por comprar o CD ou DVD, porque gostam genuinamente da obra e querem ter aquela sensação de posse, aquela sensação de “ena pá, sou dono de uma cópia da edição limitada do S&M dos Metallica”. Nos dias que correm (e talvez sempre tenhamos sido assim) o ser Humano é um bicho consumista, quer ter coisas; ter coisas fá-lo sentir-se melhor, nem que seja (e geralmente é) apenas por momentos.
Mas invariavelmente, o download de músicas e filmes é um meio de as pessoas acederem a formas de entretenimento que de outra forma podiam nunca lhes chegar.
O problema das editoras - e de alguns artistas com uma educação mais condicionada e mentalidade mais fechada - é que acham que estão a perder dinheiro.
Mas vejamos uma coisa, daqueles que fazem o download da música e depois não a compram, quantos é que irião comprar o CD, se não fizessem o download? Não muitos. Porque a esmagadora maioria das pessoas acha ridículo o preço de venda ao público que um CD de música tem, quando ainda por cima uma enormíssima percentagem daquele preço vai para a editora e distribuidora e não para o artista que criou a obra.
Portanto perdem algumas vendas. Isto é o lado negativo da coisa. Mas por que raio queremos nós olhar sempre apenas para o lado negativo? E o lado positivo, onde está? Simples: está nas vendas ganhas das pessoas que não conheciam o artista e passam a conhecer por terem feito o download da sua obra!
Portanto a coisa equilibra-se um pouco. Isto para não falar das vendas digitais, porque, apesar de eu não ter dados que suportem esta minha suspeita, eu desconfio que as editoras gostam de dizer que as vendas de CDs desceram imenso e que perderam não sei quantos milhões de dólares por causa dos downloads mas quantos mais ganharam por causa, também, dos downloads? O iTunes é apenas uma das muitas plataformas de venda de música digital, que move balúrdios a vender ficheiros de audio.
A pirataria sempre existiu, sempre há-de existir e nunca uma editora ou artista morreu à fome por causa disso. Quem não compra CDs não o vai passar a fazer por ser preso ou processado. Antes pelo contrário, para além de se gastar dinheiro aos contribuintes com tribunais e os custos de ter um cidadão encarcerado, as editoras certamente que perdem clientes - eu, pelo menos, certamente que nunca mais iria comprar fosse o que fosse de uma editora que me processasse por eu fazer o download de uma música deles.
Tudo isto para mencionar um documentário que vi durante o fim de semana, o Good Copy Bad Copy, que fala precisamente sobre a polémica do copyright, dos downloads (i)legais, da chamada pirataria e das mudanças culturais que estão a ter lugar.
Sugiro vivamente que invistam 58 minutos do vosso tempo a ver o filme. Vale a pena.
E para quem quiser ler mais sobre este assunto, sugiro os sites “Right to Create” e “Que Treta”.
Aqui fica um apanhado das ideias principais que o filme transmite e duas citações que penso serem marcantes:
- O modelo de negócio tradicional das editoras de música está morto (ou muito perto disso).
- Não faz sentido as editoras processarem os fãs dos seus artistas.
- As pessoas não se importam de compensar monetariamente o artista que apreciam; por outro lado, não têm tanta vontade de dar dinheiro às editoras, pois estas são geralmente (e correctamente, na minha opinião) consideradas um instrumento do mal.
- A facilidade de acesso a música é benéfica para as editoras, porque expõe o público a mais variedade e eventualmente acaba por levar a mais compras, as quais não existiriam sem esse acesso facilitado.
- No Brasil, em Belém do Pará, já se percebeu há muito tempo que o modelo de vendas de CDs está morto e assim, os autores optaram por serem eles próprios a fornecer os vendedores de rua com cópias das suas obras, para que estes as copiem e vendam livremente. Os autores não esperam qualquer compensação monetária das vendas dos CDs e o dinheiro que ganham vem dos concertos e festas que organizam - que é também a origem da maior fatia de ganhos dos autores noutros países, como se sabe.
- Na Nigéria também já se percebeu que os modelos tradicionais de negócio na indústria da música e dos filmes, são modelos mortos e por isso avança-se para outros modelos, fazem-se as coisas de maneira diferente.
- Em países chamados "retrógrados" e de terceiro mundo, as pessoas parecem ter os olhos menos fechados e a mente mais aberta do que gente rica, de países supostamente cultos e desenvolvidos, que se recusam a evoluír.
- Adicionar uma taxa à conta de internet para compensar as cópias piratas é uma idiotice, tal como foi (e, infelizmente, ainda é) a taxa paga nos CDs e DVDs virgens - especialmente tendo em conta que mesmo assim há gente a ser processada por copiar música e filmes.
- Também não faz sentido algum condenar à prisão miúdos e chamar-lhes "criminosos", quando o que eles estão a fazer não é roubar, não é expropriar alguém de um bem material; isso seria roubar uma maçã de uma frutaria. Copiar música (ou filmes) é como copiar a receita de um bolo - pode ser reproduzida quantas vezes forem necessárias sem qualquer perda material para o autor, pois para alguém passar a ter a receita, não é necessário que outra pessoa deixe de a ter.
The culture has changed. [...] Everybody becomes a creator by taking pieces from here and there. Forget whether they steal or not, that's a reality we have to live with.
57% of teenagers have created and shared content on the internet. [...] You can either call them criminals or pirates and use all the tools of law and technology to block them. Or we can encourage them by making a wide range of material available, that gives them a much better understanding of their past and a much better opportunity to say something about the future.
Raúl Santos