Nos dias que correm, o que interessa é o aspecto. Se parece bem, então não se mexe mais, mesmo que esteja mal feito. Não há brio no que se faz, consideram-se os pequenos pormenores como “mariquices” - sim, aqueles que fazem toda a diferença e pelos quais muitas vezes as mesmas pessoas que não lhes ligam, estão dispostas a pagar mais.
Um exemplo disso é uma funcionalidade que está disponível na maioria dos editores de texto mais “sérios” (MS Word, OpenOffice Writer, entre outros): mostrar os caracteres invisíveis (espaços, parágrafos, etc.).
Há tempos um amigo pediu-me para rever um texto que tinha escrito e reparei que ele tinha colocado dois espaços entre uma palavra. Avisei-o mas a resposta consistiu apenas numa exclamação - “bolas, como é que consegues ver isso?!” - e numa queixa - “mariquices… qual é o problema de ter lá dois espaços?”
O problema é que se eu sou capaz de reparar naquele pormenor, outras pessoas também o farão e aí entra-se no tal problema da falta de brio, porque o que para algumas pessoas são mariquices, para outras a falta dessas mariquices significa falta de cuidado e/ou de rigor, incompetência, pouco profissionalismo… enfim, uma série de coisas que fazem o/a escritor(a) ficar mal visto/a.
No entanto há uma forma muito simples de prevenir este tipo de descuidos: a tal funcionalidade que referi mais acima.
Quando essa funcionalidade está desactivada, o texto aparece “limpo”, assim:
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De facto está limpo, sem qualquer empecilho visual. Mas se optarmos por mostrar os caracteres invisíveis, revelam-se os problemas:
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Se à primeira vista as tais “mariquices” não forem visíveis, aqui estão elas em todo o seu esplendor, como deus nosso senhor quis que fossem vistas, quando criou a terra e as galinhas:
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Sem ser em nenhuma ordem em particular, a não ser aquela que deus nosso senhor também quis, porque foi assim que eu rabisquei a imagem, aqui estão eles:
- Dois parágrafos em vez de um. Comparem com o primeiro texto, sem marcações; parecia estar tudo bem, não era?
- Dois espaços entre palavras. Foi uma situação destas em que reparei e eu não tenho olhos de águia. Não que deus nosso senhor não tenha querido dar-mos; eu é que não aceitei, porque achei que fariam mais falta à ave.
- Mais dois espaços entre palavras. Esta irrita deus nosso senhor de forma particular, por isso ele quis que eu a mostrasse duas vezes.
- Um espaço a seguir a um ponto final que não tem mais nada a seguir. Esta irrita-me a mim profundamente, porque apesar de não se notar no texto sem marcações, eu sou psicótico e quando vejo textos cheios disto tenho de perder vários minutos a apagar todos os espaços a mais.
Esta última é particularmente interessante pelo desenrolar da situação com o meu amigo, pois quando o adverti para esse “erro”, ele insistiu, com uma convicção e fé inabaláveis até pelos deuses do Olimpo, que “é assim que se faz, a seguir a um ponto final há sempre um espaço; não sei porque é que se faz mas sei que é assim que se faz”.
Que se diz quando se é confrontado com um nível de argumentação e raciocínio destes? Eu ainda tentei explicar que se coloca um espaço a seguir a um ponto final quando se vai continuar a escrever na mesma linha e que tal se faz apenas por uma questão de espaçar os caracteres e dar legibilidade ao texto, não por ser uma regra qualquer que alguém inventou e que tem de ser seguida cegamente, sendo o castigo pelo seu incumprimento a sodomização por um bode enraivecido.
Claro que rapidamente desisti, porque se o grande Zeus não lhe muda as ideias, não seria eu que o conseguiria fazer…
Raúl Santos