Há coisas que nos acontecem na vida que se tornam pontos de grande mudança para a nossa pessoa.
Apesar de geralmente só nos apercebermos da verdadeira dimensão dessa mudança algum tempo após o sucedido, penso que posso dizer com alguma segurança que o passado fim de semana de 9 e 10 de Maio foi uma dessas situações na minha vida - se bem que na verdade foi mais um regresso às origens do que uma mudança.
Estive a fazer canyoning nos rios Vessadas e Teixeira, como parte do curso de canyoning de nível 1, da Associação Desnível.
Tivemos uma primeira aula teórica na sede da Desnível, seguida de uma aula prática de uma manhã no Mexilhoeiro, em Cascais, para treinarmos as técnicas que iríamos usar no rio.
Depois tivemos então as duas aulas práticas, que foram no fim de semana passado (9 e 10 de Maio), para os lados de Arouca, algures na Serra da Freita, nomeadamente na ribeira de Vessadas e no rio Teixeira, e posso dizer que não sei que palavras usar para descrever a experiência.
Já há uns anos que não estava embrenhado no meio do mato daquela forma, longe das grandes cidades, longe da confusão, com o único ruído de fundo a ser o ruído dos grilos, a ver as aves que passavam por cima de nós, com paisagens que quase me levam a ponderar a existência de um ou mais deuses, tal era a alarvidade de beleza natural.
Acampámos no meio da serra, ao lado de uma casa florestal (para não poderem implicar connosco), num local que tinha uma vista também fantástica, e cuja única estradinha de acesso, que ficava talvez a uns vinte metros, viu passar durante todo o tempo que lá estivemos, apenas 4 carros. O silêncio que impera por aqueles lados é absolutamente fantástico; não é como cá, em que mesmo em zonas verdes, como Sintra, por exemplo, consegue “sentir-se” algum ruído presente, uma “perturbação na força” ;)
A juntar a isto, tivemos a oportunidade de estar com monitores excelentes, que nos ensinaram imenso, sempre num ambiente amigável e muito descontraído - sem esquecer o sempre bem disposto Mário Silva, que esteve connosco apenas em Lisboa, na aula teórica e na primeira aula prática.
Foi um fim de semana inesquecível e que eu considero um “wake up call” para mim. É incrível a facilidade com que nos esquecemos do que existe para além das nossas pequenas bolhas de poluição a que chamamos cidades e onde achamos que vivemos felizes. Eu, que me considero uma pessoa com olhos mais abertos para isso do que a maior parte do pessoal, vi as fundações das minhas certezas serem abaladas com tal fúria que não pude deixar de olhar para elas e repensar na sua construção.
Vou certamente fazer por passar (ainda) mais tempo em contacto com a Natureza e acima de tudo em locais mais remotos, pois há nesses sítios algo de inexplicável, como que uma força, ou poder antigo que nos faz perceber que há algo muito errado na forma como a maior parte de nós leva as suas vidas.
Fotos e vídeos disponíveis no Flickr.
Raúl Santos