Nesta época é habitual desejarem-se Boas Festas, Feliz Natal, Boas Entradas, etc, etc.
Apesar de continuar a “festejar” todas essas coisas, cada vez lhes ligo menos. O que continuo a gostar nestas coisas é o facto de juntar família e/ou amigos e, talvez isto acima de tudo, as boas memórias que me trazem (os americanos chamam “warm and fuzzy” a essa sensação).
Ao resto ligo cada vez menos e algumas coisas incomodam-me cada vez mais. Vejo um consumismo desmesurado e uma hipocrisia sem igual em qualquer outra altura do ano - sim, hipocrisia, porque boas acções, solidariedade, esmolas, amor e amizade são tudo coisas que deviam existir durante o resto do ano. Reparem que não vos estou a chamar hipócritas mas sim a dizer que existe muita hipocrisia associada a esta época. Crescemos com estes hábitos, com estas tradições, portanto chamemos-lhe “hipocrisia social”, se preferirem. O que é facto é que infelizmente, para muita gente esta é a única ou das poucas alturas em que aqueles conceitos que referi ali atrás surgem na sua consciência. E então fazem-se grandes campanhas de solidariedade, pão dos pobres, grandes donativos, etc, etc. E no resto do ano, os pobres não têm direito a pão? Ou será que isto são acções levadas a cabo apenas para nos sentirmos um pouco menos mal por, durante o resto do ano, desviarmos o olhar ao passarmos por eles?
É a mesma atitude que vemos em tantas outras coisas que requerem a nossa acção conjunta para melhorarem: reduzir o consumo de carne para que os animais não sejam tão mal tratados e não seja destruída tanta floresta para as plantações que os alimentam; reduzir a utilização do automóvel para tentarmos poluir menos; desligar o carregador do telemóvel da corrente quando este já está carregado; escrevermos nos livros de reclamações dos estabelecimentos em vez de termos receio de ofender os donos… enfim, tantas coisas que só são eficazes se as fizermos todos - mas não as fazemos, porque há sempre aquela mentalidade derrotista e de visão curta: o que é que eu sozinho vou mudar no mundo?
Já chega!
Eu sozinho vou mudar o mundo! Sozinho porque cada coisa que faço só depende de mim, da minha vontade, de a querer fazer. Mas ao mesmo tempo estou acompanhado nas minhas acções, acompanhado por outras pessoas que sabem que só em conjunto é que podemos melhorar alguma coisa, pessoas que, também elas, decidiram mudar o mundo para melhor. Individualmente somos uma gota no oceano mas em conjunto as nossas acções têm um grande peso.
Uma dessas acções é renunciar ao consumismo cego e à hipocrisia destas épocas.
Portanto venho desejar-vos as Boas Festas pelo mesmo motivo que todos nós: porque é o socialmente correcto. Não significa que não as deseje de forma sentida ou que esteja a ser hipócrita; significa sim que não vos desejo mais coisas boas nestes dias do que já desejo nos restantes dias do ano. Não se queixem porque saem a ganhar, dado que esta época festiva só dura uns dias e eu estendo os meus desejos pelo ano inteiro.
Termino com uma pequena história que talvez faça o “clique” necessário na mente de alguns de vós. Espero que sim.
Certo dia na floresta deflagrou-se um enorme incêndio. Todos os animais começaram a correr, fugindo das chamas, tentando salvar as suas vidas. Um hipopótamo ao atravessar o rio viu um beija-flor apanhar a pouca água que conseguia com o seu minúsculo bico e ir deitá-la para cima das chamas que consumiam a vegetação. Ao ver isto o hipopótamo interpelou o beija-flor e perguntou-lhe "Oh beija-flor, então tu achas que com a água que podes transportar no teu bico vais conseguir apagar o incêndio sozinho?", ao que o beija-flor respondeu "Sozinho? Não, que disparate! Eu estou apenas a fazer a minha parte."
Boas Festas!
Raúl Santos