Após o registo num curso leccionado por uma associação onde já tinha tirado outro curso no ano passado, recebi um e-mail do formador, enviado para todos os alunos do curso e com as moradas de e-mail visíveis, sem usar o BCC. Sendo já a terceira vez que me fazem isso, mesmo depois de ter respondido aos e-mails anteriores a pedir para não o fazerem, decidi falar com eles. O telefonema foi como se segue:
Eu - Boa tarde. Porque é que espalharam por todos os participantes o endereço de e-mail que dei quando me inscrevi na actividade do fim de semana?
Eles - Como assim? Não espalhámos o seu e-mail por ninguém…
Eu - Claro que espalharam, enviaram um e-mail para toda a gente da actividade, com as moradas de e-mail todas visíveis, portanto não só espalharam o meu e-mail como espalharam o de todas as outras pessoas para quem enviaram a mensagem.
Eles - Pois, já estou a perceber. Mas qual é o mal disso? É só uma morada de e-mail e vocês são todos colegas no curso, faz sentido, já que estão todos juntos.
Eu - O mal é que não nos conhecemos e não sabemos se queremos que toda a gente tenha as moradas de e-mail uns dos outros.
Eles - Mas porquê?
Eu - Porque não sabemos se não vamos começar a encher a caixa de correio uns dos outros com lixo, não sabemos se não vamos espalhar as nossas moradas por ainda mais pessoas que por sua vez também nos enchem a caixa de correio com lixo, porque não sabemos se não nos vamos achar uma cambada de idiotas e não querer manter esses contactos, e finalmente porque é um dado pessoal e como tal não deve ser espalhado sem o nosso consentimento.
Eles - Mas é só uma morada de e-mail, não é nada assim tão importante.
Eu - OK, tem razão, estou a ser picuinhas, a privacidade dos vossos associados não é para ser respeitada e o quão privado é um pedaço dos meus dados pessoais não me cabe a mim decidir mas sim a vocês.
Depois disto, espalhei as moradas e números de telefone pessoais dos responsáveis pela brincadeira por alguns locais estratégicos. Claro que assim que descobriram que fui eu, vieram logo chatear-me.
Eu - Está sim?
Eles - Boa tarde, olhe, estava a ligar para saber se foi mesmo você que espalhou o meu número de telefone e a minha morada pela internet.
Eu - Estava a ligar? Mas já não está?
Eles - Estou sim, ainda estamos a falar, portanto ainda estou a ligar, mas estava a ligar era para saber do que lhe perguntei.
Eu - Então mas estava ou está?
Eles - Deixe-se de brincadeiras, ainda estamos a falar, portanto ainda estou a ligar. Responda-me: foi você que espalhou os meus contactos pela internet?
Eu - Sim.
Eles - Mas você é maluco? Agora tenho gente a ligar-me às 3 da manhã a perguntar se faço servicinhos ao domicílio! E apareceram-me cá em casa com um caixão para eu experimentar! E ao monitor do curso ligam durante a noite a pedir táxis e pizzas e já lhe apareceram dois strippers masculinos em casa!
Eu - Ah, agora já sei do que é que está a falar. Eu respondi que sim mas foi só porque me pareceu que era o que queria ouvir. Bom, isso deve ser por terem apanhado os vossos dados num dos fóruns e websites em que os coloquei juntamente com anúncios para serviços de prostituição, entrega de comida ao domicílio durante a noite, necrofilia e outros de que agora não me lembro. Mas não se preocupem, os vossos dados estavam lá simplesmente por estarem, estava explícito que não tinham nada que ver com os serviços anunciados. Já agora, o caixão servia?
Eles - Mas você é parvo ou faz-se?! Estou a dizer-lhe que você espalhou os nossos dados pessoais de contacto sabe-se lá por onde, que por causa disso estamos a ser assediados, incomodados durante a noite e até com visitas indesejadas na nossa casa, e você responde-me com uma parvoíce dessas?
Eu - Não é parvoíce, estava apenas a tentar ser simpático.
Eles - Mas o que você fez não tem nada de simpático! A minha vida anda um caos por sua causa!
Eu - A sério? Bom, isso deve ser chato. Mas ao menos conseguiu algum cliente?
Eles - Pois, é muito chato, você não tinha nada que espalhar os nossos telefones e as nossas moradas pessoais sem o nosso consentimento e muito menos em sítios daqueles! E não me chame puta!
Eu - Mas eu não fiz de propósito, os vossos dados foram espalhados juntamente com os restantes dados dos participantes do programa de doação de órgãos ainda em vida.
Eles - O quê?! Mas eu não estou em nenhum programa desses!
Eu - Sim, eu sei.
Eles - Então o que é que eu tenho a ver com isso? Porque é que os meus dados estão juntos aos dados dessas pessoas?
Eu - Não estão. Eu é que os juntei. Fazia sentido, dado que vivem no mesmo país, por isso estão todos juntos.
Eles - E o que é que tem o programa de doação de órgãos que ver com isto?
Eu - Nada.
Eles - Nada?
Eu - Nada.
Eles - …….
Eu - Mas afinal qual é o seu problema, conte-me lá para ver se conseguimos resolvê-lo e podemos ir tomar chá.
Eles - O problema é que me espalhou dados pessoais por uma data de sítios que eu não conheço e em que pessoas que não conheço os foram buscar, estando agora a tirar partido deles!
Eu - Mas eu fi-lo com a melhor das intenções. Afinal qual é o mal? Uma morada é só um local físico, as pessoas podem passar por lá quer a conheçam quer não conheçam. E o telefone também pode ser obtido facilmente ligando para o 118. Qual é o problema?
Eles - Ou você se está a fazer de parvo ou é mesmo parvo e não compreende o conceito de privacidade e dados pessoais! O problema é que eu não queria que esses dados fossem espalhados por aí como se fossem do povo!
Eu -Ah, agora chegámos a algum lado! Bom, como vocês tomaram a liberdade de decidir o quão privados eram os meus dados pessoais, eu também tomei essa liberdade em relação aos vossos. E tal como vocês tomaram a liberdade de espalhar os meus dados pessoais por pessoas que nem eu nem vocês conhecem, eu decidi fazer o mesmo. Vocês decidiram que um endereço de e-mail não é importante; eu decidi que uma morada e um número de telefone não são importantes. Quem são vocês para dizerem que têm mais razão que eu? Aprendam a respeitar a privacidade dos outros e deixem ser eles a escolher o que é que da sua informação é importante e deve ser mantido privado, sff. E já agora, recomendo a pizza vegetariana; o ananás com o milho fica mesmo bom.
Raúl Santos