Há quase 10 anos que frequentava o salão de chá “Tea For Two”, na Costa da Caparica. Achava o espaço agradável, gostava das comezainas que por lá havia e já tinha uma relação quase de amizade com os donos, a D. Fernanda e o Sr. Michael. Ia lá frequentemente com grupos grandes, de pessoal do Kung Fu, pessoal do trabalho, pessoal da faculdade, enchi várias vezes metade da sala com festas de aniversário, etc. - ou seja, era um bom cliente. Era.
Há uns meses a D. Fernanda vendeu o Tea For Two. Eu sabia que ela andava à procura de um novo dono mas nunca imaginei que a mudança de gerência fosse trazer as consequências que trouxe.
No primeiro dia que lá fui após a nova gerência ter tomado posse, vi logo alguns dos primeiros sinais mas ainda não imaginava o que vinha dali. Uma das novas donas, a Margarida, até é gira mas essa foi a única coisa positiva que a mudança trouxe, porque de resto, tem sido uma descida a pique que culminou com a minha ida lá hoje - e que foi também a última.
Algo que sempre me incomodou nas casas de chá, cafés e afins, é cobrarem por uma chávena extra. Pede-se um chá para uma pessoa mas essa pessoa sabe que não bebe aquilo tudo, portanto pede uma chávena extra para partilhar o chá com a sua companhia. Cobrar por essa chávena não só é desagradável para o cliente, como roça a linha da desonestidade - é uma chávena, porra! A água não é assim tão cara e mesmo que fosse, a quantidade de chá, que é efectivamente o produto a ser vendido, é a mesma. O único custo extra é o de se lavar mais uma chávena mas o que se ganha em satisfação do cliente por não ter a sensação de que está a ser roubado ao pagar por usar uma chávena, não tem preço. Da próxima vez que for acompanhado a um sítio onde façam isto, peço um chá só para uma pessoa (que chega sempre para duas) mas não peço chávena extra. Depois saco de uma palhinha do bolso e começo a beber. Quero ver se me vêm cobrar pela minha palhinha.
Na minha opinião, isto não é algo que se deva fazer em lado nenhum mas certamente não num salão de chá como o Tea For Two. O Tea For Two sempre teve um determinado ambiente, uma determinada “classe”, ou “charme”. A D. Fernanda também cobrava extra pela chávena de chá a mais mas era uma das muito poucas coisas pequenas que se podia apontar, e por isso passava despercebida. O mesmo não se passa agora, pois não há assim tão pouca coisa a apontar.
Infelizmente a nova gerência não compreende (ou quer mudar radicalmente) o que era o Tea For Two e estão a arruinar completamente o tal charme que era uma das características mais definidoras do Tea For Two e que levava lá a maior parte dos clientes.
Uma das primeiras coisas em que reparei após a mudança foram os coraçõezinhos. De início eram só dois ou três mas agora há coraçõezinhos vermelhos e cor de rosa por todo o lado. Quando me sento e olho em redor e para a ementa, pergunto-me se estou num salão de chá ou na sala de recreio de uma creche infantil. Sei que andam a fazer lá workshops com putos mas isso é algo que requer um ambiente e o Tea For Two requer outro. Misturá-los é um erro.
A vestimenta que as donas envergam também combina com esse espírito de jardim infantil. A D. Fernanda não se vestia como uma raínha mas tinha presença. Agora quando me vêm atender, por vezes penso se não estou na praça a comprar peixe. Exemplo: leggings pretos com aventais manhosos e blusas que me fazem lembrar os freaks que paravam em frente à cantina da FCT na hora de almoço, a fazer malabarismo. Num salão de chá? WTF?! Eu não sou um gajo snob nem de grandes cerimónias mas acho que aquilo estraga muito o espírito da sala e acho que não é algo difícil de compreender por qualquer pessoa que já lá tenha ido.
A ementa foi outra. Estas senhoras acharam que era perfeitamente aceitável agarrar nas ementas que já existiam (que mantiveram, e muito bem) e escrever e riscá-las todas com marcadores de álcool pretos. Desde preços riscados e corrigidos ao lado, a cruzes a marcar os itens que já não existem, passando por várias linhas de novos itens e chegando até a haver duas páginas que anteriormente estavam em branco e que agora têm uma lista de coisas que se podem pedir. Tudo isto escrito à mão, com marcador preto, tudo borrado… ah, e com corações, claro. Vários corações novos, colados às folhas laminadas da ementa, qual colagem de 4ª classe. E que tal fazerem ementas novas, não? “Ah e tal, custa dinheiro” - pois custa mas não é nenhuma fortuna e querem saber um segredo? Perder clientes custa muito mais…
A desilusão seguinte foi com os bolos e outras comidas. As doses foram reduzidas. Algumas para menos de metade. As fatias de bolo são bem mais pequenas do que eram. Por exemplo, eu adorava o bolo de cenoura com chocolate que a D. Fernanda fazia, por isso ia chorando quando lá entrei pela primeira vez após a venda do espaço, e vi um bolo de cenoura no expositor que não tinha nem metade da altura ou espessura dos anteriores. Na vez seguinte foi com os menus. A D. Fernanda fazia umas sopas divinais, que servia no menu que incluía também ovos mexidos com queijo ou fiambre, salada, umas tostas e uma sobremesa. O último menu que lá pedi vinha num prato mais pequeno que anteriormente e a porção de ovos mexidos… Bom, digamos que se a D. Fernanda usava dois ovos, as novas donas devem usar meio ovo… Na vez seguinte lembrei-me de algo que ainda valia a pena: as tostas. São caras, sempre foram (desde que tostas entraram na moda, qualquer local de restauração cobra um balúrdio por uma tosta) mas pelo menos eram gigantes e deliciosas. Dessa vez não me desiludi mas hoje, apesar de continuar a ser deliciosa, a tosta tinha literalmente metade do tamanho ou talvez menos. O preço? Não, esse manteve-se nos 4 Euros, Quando trouxeram a tosta, só não saí imediatamente porque seria desperdiçar comida.
Ah, e servirem sopa estragada? Maravilhoso…
Até no raio da música conseguiram falhar. A D. Fernanda passava sempre os mesmos 3 ou 4 CDs de música - mas era a música acertada para o ambiente do Tea For Two. Agora a televisão está sempre num canal qualquer da Meo que dá música e é isso que se ouve: o que apetecer aos tipos da Meo, que varia entre Amália Rodrigues e Sepultura.
Conclusão: o Tea For Two como eu e tanta gente o conhecíamos, acabou-se. O ambiente está estragado, as doses foram drasticamente reduzidas mas os preços mantiveram-se e alguns até subiram. Eu não pretendo lá voltar nem levar mais amigos ou grupos. Aliás, tenciono espalhar esta crítica por toda a gente que conheço que lá vá, para que não vão e acabem por se sentir “traídos” como eu sinto. Se forem, que vão prevenidos. A clientela que estava feita há anos, e que contava com “peixe graúdo”, como alguns presidentes de Câmaras e pessoal famoso das artes e espetáculos, vai-se perder. Espero que as novas donas do espaço saibam muito bem o que estão a fazer, porque até agora a ideia que me dá é que destruíram o Tea For Two e não sabem bem o que vão pôr no seu lugar.
Raúl Santos