Porque é que a Islândia devia estar nas notícias mas não está

O que se segue é a tradução (e várias correcções e clarificações) para Português de um artigo do Bella Caledonia, publicado originalmente aqui no dia 25 de Agosto de 2011.

Faço isto porque acho que não há gente suficiente a saber o que se passou e ainda se está a passar, e porque isto devia ser um exemplo para nós, Portugueses - e Espanhóis, e Gregos, e Italianos…

Espero que consigam ver aqui a semelhança do que aconteceu com a Islândia e os levou à falência, com o que está a acontecer com Portugal. Espero também que percebam que não temos que nos encolher e continuar a ser espezinhados por um bando de filhos da puta. Lembrem-se: eles trabalham para nós!


Por Deena Stryker

A menção da revolução que está a decorrer na Islân dia, num programa de rádio Italiano, é um excelente exemplo de quão pouco a nossa comunicação social nos diz sobre o resto do mundo. Os Americanos poderão recordar-se de que no início da crise financeira de 2008, a Islândia foi literalmente à falência. As razões foram mencionadas apenas brevemente e, desde então, este membro pouco conhecido da União Europeia caiu novamente no esquecimento.

À medida que país Europeu atrás de país Europeu sucumbe ou fica em risco de sucumbir, pondo em perigo o Euro, com repercursões para o resto do mundo, a última coisa que as pessoas no poder querem é que a Islândia se torne um exemplo. Eis o porquê:

Cinco anos de um regime neo-liberal puro tornaram a Islândia (população de 320 mil pessoas, sem exército) num dos países mais ricos do mundo. Em 2003 todos os bancos do país foram privatizados e num esforço para atraíd investidores estrangeiros, ofereciam serviços online, cujos custos baixíssimos lhes permitiam obter lucros relativamente elevados. As contas, chamadas IceSave, atraíram muitos investidores Ingleses e Holandeses pequenos. Mas à medida que os investimentos cresciam, também a dívida externa dos bancos crescia. Em 2003 a dívida da Islândia era 200 vezes o seu PIB mas em 2007 era de 900%. A crise financeira mundial de 2008 foi o golpe de misericórdia. Os três bancos Islandeses principais, Landbanki, Kaupthing e Glitnir, faliram e foram nacionalizados, enquanto a króna [a moeda nacional da Islância] perdeu 85% do seu valor relativamente ao Euro. No fim do ano a Islândia declarou falência.

Ao contrário do que seria de esperar, a crise resultou na recuperação dos direitos soberanos dos Islandeses, através de um processo de democracia participatória directa que eventualmente levou a uma nova Constituição. Mas só depois de muito sofrimento.

Geir Haarde, o Primeiro Ministro de um governo de coligação Social-Democrata, negociou um empréstimo de dois milhões e cem mil dólares, ao qual os países Nórdicos adicionaram mais dois milhões e meio. Mas a comunidade financeira estrangeira pressionou a Islância para impôr medidas drásticas. O FMI e a União Europeia queriam tomar o controlo da dívida da Islândia, afirmando que esta era a única maneira de o país conseguir pagar o que devia à Holanda e à Grã Bretanha, que tinham prometido reembolsar os seus cidadãos.

Os protestos e as manifestações continuaram, forando eventualmente o governo a demitir-se. As eleições foram antecipadas para Abril de 2009, resultando numa coligação de esquerda que condenava o sistema económico neo-liberal, mas que imediatamente cedeu às exigências de que a Islândia pagasse um total de três milhões e meio de Euros. Isto requeria que cada cidadão Islandês pagasse 100 Euros por mês durante quinze anos, a uma taxa de juro de 5.5%, para pagar uma dívida que tinha sido acumulada por entidades privadas. Foi a gota de água e o copo transbordou.

O que se passou a seguir foi extraordinário. A mentalidade de que os cidadãos tinham de pagar pelos erros de um monopólio financeiro, que uma nação inteira tinha de ser taxada para pagar dívidas privadas, foi estilhaçada, transformando o relacionamento entre os cidadãos e as insituições políticas, e eventualmente levando os líderes Islandeses para o lado dos seus constituintes. O Chefe de Estado, Ólafur Ragnar Grímssom, recusou-se a ratificar a lei que teria tornado os cidadãos Islandeses responsáveis pelas dívidas dos seus banqueiros, e aceitou realizar um referendo.

Claro que a comunidade internacional apenas aumentou a pressão sobre a Islância. A Grã-Bretanha e a Holanda ameaçaram retaliações duras que podiam isolar o país. Quando os Islandeses foram votar, banqueiros estrangeiros ameaçaram bloquear qualquer ajuda do FMI. O governo Britânico ameaçou congelar contas poupança e à ordem dos Islandeses. Como disse Gríssom: “Disseram-nos que se recusássemos as condições da comunidade internacional, que nos tornaríamos a Cuba do Norte. Mas se tivessemos concordado, ter-nos-íamos tornado no Haiti do Norte.” (Quantas vezes já escrevi eu que quando os Cubanos vêm o estado precário dos seus vizinhos do Haiti, consideram-se sortudos.)

No referendo de Março de 2010, 93% votaram contra o pagamento da dívida. O FMI congelou imediatamente o seu emprésimto. Mas a revolução (embora não televisionada nos Estados Unidos) não se deixou intimidar. Com o apoio de um povo enfurecido, o governo lançou investigações criminais para apurar quem eram os responsáveis pela crise financeira. A Interpol lançou um mandato de captura internacional para o ex-presidente do Kaupthing, Sigurður Einarsson, enquanto os outros banqueiros implicados na queda do país fugiram do mesmo.

Mas os Islandeses não pararam por aqui: decidiram escrever uma nova Consituição que libertaria o país do poder excessivo das insituições financeiras internacionais e do dinheiro virtual. (A Constituição em vigor na altura tinha sido escrita quando a Islândia ganhou a sua independência da Dinamarca, em 1918, sendo a a única diferença entre as duas a palavra ‘presidente” ter substituído a palavra “rei”.)

Para escrever a nova Constituição, o povo Islandês elegeu vinte e cinco cidadãos de entre 522 adultos que não pertenciam a nenhum partido político e que tivessem sido recomendados por pelo menos trinta outros cidadãos. Este documento não foi fruto do trabalho de meia-dúzia de políticos; foi escrito na internet. As reuniões dos constituintes são transmitidas online e os cidadãos podem enviar os seus comentários e sugestões, sendo testemunhas do documento à medida que este ganha forma. A Constituição que eventualmente surgirá deste processo democrático participatório será submetida ao parlamento para aprovação nas próximas eleições.

Alguns leitores poderão recordar-se de que o colapso agrário da Islândia no século nove foi retratado no livro “Colapso”, de Jared Diamond. Hoje o país está a recuperar do seu colapso financeiro de formas completamente contrárias àquelas que seriam normalmente consideradas inevitáveis, como foi confirmado ontem a Fareed Zakaria pela nova líder do FMI, Christine Lagarde. Ao povo Grego foi dito que a privatização do sector público é a única solução. Os povos Italiano, Espanhol e Português enfrentam a mesma ameaça.

Todos eles deviam olhar para a Islândia. Recusando-se a vergar-se aos interesses estrangeiros, aquele pequeno país declarou alto e bom som que o povo é soberano.

É por isso que já não aparece nas notícias.